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Economia

Palestras no INMET marcam Dia Nacional do Cerrado

Vista aérea da Lagoa Bonita, na Estação Ecológica de Águas Emendadas, em Planaltina, no Distrito Federal
Estação Ecológica de Águas Emendadas, área de Cerrado em Planaltina (DF). Foto de arquivo (2024). Foto: Adeilton O. de Souza

Por Redação do Jornal de Planaltina

Publicado em

13 min de leituraPlanaltina (DF)

As iniciativas da Embrapa Cerrados voltadas à conservação e à recomposição da vegetação nativa, além da importância das informações meteorológicas e climáticas para o desenvolvimento sustentável do Cerrado foram apresentadas aos empregados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) no dia 11 de setembro. Promovido pelo instituto em parceria com a Unidade, o encontro foi alusivo ao Dia Nacional do Cerrado.

O bioma Cerrado tem papel fundamental para o Brasil, tanto pela biodiversidade e pelos recursos naturais quanto pela importância para a produção agropecuária e a segurança hídrica do País. Nesse contexto, ciência, pesquisa, monitoramento e produção e informações qualificadas são essenciais para apoiar decisões e contribuir para a maior sustentabilidade e resiliência do bioma.

Na abertura do evento, foi abordada a importância do Cerrado e de sua recuperação e conservação, bem como da cooperação técnica de mais de 20 anos entre as instituições, que tem contribuído para a integração de saberes e o desenvolvimento de diversas ações de pesquisa no bioma.

Dados meteorológicos e climáticos alimentam o Zarc

Como exemplo de transformação de informações meteorológicas e climáticas geradas pelo INMET em instrumento de planejamento para redução de riscos na agropecuária e maior segurança para o produtor rural, o pesquisador Fernando Macena apresentou o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc).

Ao lembrar que a agricultura é uma “fábrica a céu aberto” e não pode controlar as principais variáveis – água, sol e temperatura –, o pesquisador citou que o déficit hídrico é o principal fator climático que causa perdas nas lavouras brasileiras, seguido por excesso de chuvas, elevadas temperaturas, geadas, granizo e ventos fortes. “O INMET está em todos esses dados de climatologia, e nós contabilizamos isso no Zarc”, afirmou, destacando a parceria com o instituto.

Os riscos climáticos são parte dos riscos de produção, que ao lado dos riscos do ambiente de negócios e os riscos de mercado levam a perdas anuais de R$ 11 bilhões pelos produtores brasileiros. Criado em 1996, o Zarc é um pacote tecnológico que orienta o produtor e o agente de financiador de seguro e crédito agrícola sobre as épocas mais adequadas e menos vulneráveis para o plantio de 51 culturas agrícolas, gerando maior segurança para ambos ao antecipar os riscos climáticos.

A partir do balanço hídrico de cada cultura, composto por dados de clima (como os coletados pelas estações pluviométricas do INMET), solo e da cultura, o Zarc delimita regiões e épocas de semeadura em classes, conforme as probabilidades de perda de produção (20%, 30% e 40%) por eventos meteorológicos adversos. Além de indicar as datas de semeadura a cada um dos 36 decêndios (10 dias) do ano por cultura, tipo de solo e município, o Zarc aponta o número de safras possíveis numa região. “Além de indicar as datas com menor risco climático, o Zarc é um indutor de tecnologias porque nos mostra outros caminhos que podem mitigar o risco”, resumiu Macena, mostrando exemplos de mapas do Zarc indicando as probabilidades de risco de semeadura de uma cultura nos mais de 5 mil municípios do Brasil em diferentes decêndios

As informações geradas pelo Zarc são validadas em reuniões com associações de produtores, técnicos, cooperativas, secretarias estaduais e agentes financeiros. Os encaminhamentos embasam as portarias do Zarc que são publicadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária e regem os programas oficiais de crédito e seguro agrícolas.

A tecnologia, segundo pesquisador, gera uma economia anual média de R$ 5,9 bilhões que deixam de ser pagos em indenizações pelo seguro agrícola, sem falar no valor da produção que não foi perdida com a mitigação de riscos climáticos, que não é contabilizado.

O pesquisador comentou sobre a inovação Zarc Níveis de Manejo (ZarcNM), iniciada com a cultura da soja no Paraná e que no momento está em validação pela pesquisa em todo o País. O ZarcNM contempla quatro níveis crescentes de manejo do solo – do plantio convencional ao Sistema Plantio Direto na palha –, de modo que o maior nível (4) representa maior cobertura e proteção do solo, o que garante maior conservação do solo e dos recursos hídricos; maior acúmulo de carbono no solo; redução de riscos climáticos; maior produtividade e saúde do solo. A ideia é que, conforme o nível de manejo, o produtor receba subvenções diferenciadas ao prêmio do seguro agrícola.

Macena ressaltou que o ZarcNM trará outro ganho importante para o produtor: “Com esses níveis de manejo, podemos aumentar a janela de semeadura. O nível de manejo 4 pode ter uma janela bem maior que a do nível de manejo 1 porque ele guarda mais água no solo, o risco é menor”, explicou.

Recomposição ambiental do Cerrado

O pesquisador Felipe Ribeiro abordou as características do Cerrado e os desafios da composição e da recomposição da vegetação nativa. Estima-se que o bioma tenha iniciado a sua formação há 65 milhões de anos, e a conformação atual tem pelo menos 45 milhões de anos.

Localizado abaixo da linha do Equador, em região de clima sazonal, o Cerrado é o berço das águas de oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras, com destaque para as Bacias do Paraná e do São Francisco, impactando a agricultura em diversas regiões do País. O bioma tem 45 mil espécies de plantas conhecidas, e a sazonalidade do clima explica, como disse o pesquisador, o florescimento de espécies como os ipês e a cagaita no final do inverno. “São espécies adaptadas para florescerem, produzirem fruto logo em seguida e terem sementes para germinarem em setembro e outubro”, explicou.

“E quando estamos falando de recomposição do Cerrado, estamos falando de um Zarc para espécies nativas. Quando fazemos recomendações dentro do Código Florestal e da restauração, utilizamos os mesmos dados do INMET, com os mesmos princípios das espécies cultivadas, verificando em cada espécie quais são suas exigências”, disse Ribeiro, comentando sobre a plataforma on-line WebAmbiente, que é alimentada com esses dados para a recomendação de cerca de 800 espécies para auxiliar na tomada de decisão quanto à recomposição da vegetação nativa em todo o Brasil.

Ao mostrar dados sobre a diminuição das chuvas no Distrito Federal nos últimos 50 anos, ao passo que o consumo de água para irrigação tem aumentado, assim como as temperaturas no inverno, a evapotranspiração e a incidência de incêndios causados pelo homem, Ribeiro destacou que o uso das informações geradas pelo INMET auxiliam nas tomadas de decisão, diante desse cenário, para recomendações relativas tanto à agricultura como à recomposição ambiental com espécies nativas.

A legislação ambiental prevê diversos métodos para a recomposição da vegetação, conforme o tipo de área – Áreas de Preservação Permanente (APPs) e de Reserva Legal (ARL). “Entender o clima e o solo é o que faz termos bons dados para uma recomendação adequada para o lugar onde o produtor tem que recompor (a vegetação), porque ele não vai utilizar irrigação para fazer isso”, afirmou o pesquisador.

Além de conhecer os produtos da biodiversidade das APPs e das ARLs, é preciso compreender a importância dos serviços ecossistêmicos, conforme defendeu o pesquisador. Ao citar o trabalho conjunto de recomposição de uma área de Cerrado na sede do INMET, em Brasília, ele lançou as perguntas: “A vegetação que estamos recompondo é mato ou é Cerrado? Muitas vezes, alguém pode pensar que é uma área suja, descuidada. É preciso entender a diferença. Como podemos produzir e também cuidar do Cerrado?”.

Ribeiro comentou sobre as funcionalidades do WebAmbiente, que com base nas informações sobre a propriedade, clima e solo locais fornecidas pelo usuário, simula as estratégias adequadas para a readequação ambiental da paisagem rural, sugere as espécies que podem ser usadas e as boas práticas para preparo inicial do local, entre outros, auxiliando na elaboração do projeto de recuperação de áreas degradadas e alteradas (PRADA). Também citou publicações disponíveis para download, como o Guia de plantas do Cerrado para recomposição da vegetação nativa, e o desenvolvimento de cultivares de espécies nativas como o pequi.

“Nossa preocupação é mostrar que se cuidarmos bem do solo e das plantas do Cerrado, estaremos produzindo uma safra extra (os serviços ecossistêmicos). Restaurar não é só ter a vegetação na área, precisamos ter biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Mais que plantar árvores, temos que restaurar a funcionalidade do ecossistema. Isso está acontecendo aqui no INMET. E que a cobertura vegetal, a biodiversidade e a água sejam valorizadas por todos”, finalizou.

A restauração ecológica no INMET

Os trabalhos de recomposição da vegetação nativa e a trajetória dos plantios em área do INMET foram apresentados pela pesquisadora Fabiana Aquino. Além da Embrapa Cerrados e do instituto, as ações também contam com a parceria da Universidade de Brasília (UnB). A partir dessas atividades em “laboratório a céu aberto”, já foram geradas três dissertações de mestrado, uma tese de doutorado e algumas publicações.

“Quando falamos de restauração ecológica ou recuperação de uma área degradada, queremos retornar com a vegetação e os processos ecológicos que foram retirados, também impactando de alguma forma o solo”, explicou, lembrando o aprendizado e o avanço de tecnologias de restauração do Cerrado nas últimas décadas. “Podemos dizer que hoje conhecemos uma parte do bioma, mas ainda há muito do Cerrado que desconhecemos, principalmente solo e microrganismos do solo”, completou.

O processo de restauração ecológica envolve o enriquecimento de sistemas ecológicos que estão empobrecidos ou com o solo degradado, como as áreas de beira de rio, buscando a retomada das funções ecológicas para que o ecossistema entre em equilíbrio. Mas, segundo Fabiana, o caminho desse processo não é uma linha reta. “O que nos orienta é tentar diminuir os custos na reposição da vegetação e do solo com a maior eficiência ecológica possível”.

Antes da realização dos plantios de recuperação, a área no INMET era utilizada como jardim, tendo sido roçada por muitos anos. Não se sabia se havia um banco de raízes de espécies nativas no solo. “Imaginávamos que, com tanto tempo de roçada, já havia se perdido esse banco de raízes capazes de restaurar naturalmente o Cerrado. Tínhamos, então, que decidir o que fazer”, lembrou a pesquisadora.

Ao falar sobre a linha de decisão para o diagnóstico e planejamento da recuperação de vegetação da área na época, ela informou que o solo não apresentava sinais de degradação significativa, não havia gado na vizinhança por se tratar de uma área urbana, nem risco de incêndio, pois o INMET já tinha aceiro. “Mas qual era o potencial daquela área se regenerar sozinha? Será que ela teria sementes suficientes e banco de raízes capazes de retomar a vegetação? Naquele momento, entendemos que havia um baixo potencial de regeneração natural”, explicou Fabiana.

Os pesquisadores então decidiram pelo plantio de mudas e pela semeadura direta de lobeira, uma espécie savânica, pois havia sementes disponíveis na quantidade necessária. O esquema de plantio, realizado em novembro de 2004, envolveu 837 mudas de nove espécies savânicas e 10 espécies florestais com diferentes valores ecológicos, em espaçamento 3 m x 3 m, numa área retangular de 6.750 m2.

Em imagens de janeiro de 2011, a vegetação florestal já estava se fechando e havia um tapete de vegetação herbácea exótica, enquanto as fotografias de maio de 2017 mostram que as espécies plantadas cresceram e se estabeleceram na área. A taxa média de sobrevivência das espécies plantadas ficou acima de 80%.

A lobeira foi a espécie facilitadora – a queda das folhas das árvores provocou alterações no solo que permitiram o estabelecimento de outras espécies, promovendo o ciclo de renovação da vegetação. O baruzeiro, outra espécie savânica, apresentou taxa de sobrevivência de 95,7%. Entre as espécies florestais, o angico se destacou pelo rápido crescimento no primeiro ano (151 cm); o angico vermelho teve taxa de sobrevivência de 85%, a copaíba 93,6% e o ingá 89,4%.

A área em recuperação no INMET é uma Unidade de Referência Tecnológica (URT), mas, segundo Fabiana, serve como simulação de uma Área de Reserva Legal de uma propriedade rural e de como o produtor pode utilizá-la.

Em 2014, após 10 anos de plantio, os pesquisadores avaliaram o quanto da vegetação recuperada se assemelhava à vegetação natural presente no cinturão de Cerrado remanescente que contorna parte da área do INMET. “Se ela estivesse se aproximando da vegetação desse cinturão, é sinal de que fizemos certo: plantamos corretamente e estimulamos os processos ecológicos dentro dessa área”, disse.

A vegetação lenhosa (espécies que produzem madeira) e a representatividade florística do cinturão foram caracterizadas e, para a pesquisadora, o resultado surpreendeu a equipe: “Num fragmento urbano, temos 111 espécies nativas do Cerrado, considerando apenas as lenhosas. É uma área representativa do bioma, de riqueza comparável a outras áreas do Cerrado do Distrito Federal e do Brasil”.

Os pesquisadores também estabeleceram quatro linhas de amostragem de 90 m abrangendo o cinturão, a área dos plantios de recuperação e uma área entre ambas que estava abandonada. A ideia era verificar as espécies presentes ao longo dessas linhas. Foram encontradas 91 espécies, havendo grande similaridade entre a área abandonada e a área do plantio de recuperação. Também foi registrada a chegada de 7.590 sementes/m2/ano de 51 espécies e a presença de plantas jovens, o que sinaliza a regeneração do Cerrado.

“Isso mostra que há fontes de sementes e fontes de propágulos vindo do banco de raízes e restaurando ou regenerando naturalmente essa área. O cinturão de Cerrado fornece sementes que são dispersadas por vento e animais para essas áreas que estão abertas. Elas se transformam em pequenas plantas, que vão se tornar adultas, produzir frutos e liberar sementes no chão, originando novas plantas. Esse ciclo é extremamente importante para a recuperação do Cerrado”, afirmou Fabiana, acrescentando que quando isso ocorre sem intervenção humana, a vegetação é capaz de se regenerar sozinha; mas se houver interrupção, não há condições de recuperação de forma natural.

No momento, a área do plantio de regeneração já não pode mais ser facilmente distinguida nas imagens aéreas, e outras áreas no instituto estão sendo deixadas para restauração natural. “Podemos considerar que intervenção aqui dentro do INMET foi bem-sucedida do ponto de vista da recuperação do Cerrado. Temos um fragmento (de área), que são árvores adultas que oferecem sementes saudáveis, além do banco de sementes que já estava aqui, recebendo essas sementes que geram o novo ciclo de vegetação”, disse a pesquisadora, informando que as informações geradas com o trabalho são usadas na recuperação de outras áreas de Cerrado.

A pesquisa agora busca responder a outras perguntas. Um novo estudo, liderado pela professora da UnB Maria Cristina de Oliveira, visa monitorar e avaliar a regeneração natural da vegetação savânica de outra área no INMET onde, a partir da década de 1970, a vegetação natural foi suprimida e posteriormente substituída por gramado de capim braquiária. Para efeito de comparação, será utilizada uma área do cinturão de Cerrado.

Segundo Fabiana, o estudo vai contribuir para a compreensão de como o Cerrado se regenera após um longo período de perturbação (roçadas) e posterior abandono. Nesse sentido, ela aponta a importância do histórico de intervenção na área monitorada. “O trabalho está mostrando que quanto mais longo o período de perturbação, menor é a chance de o Cerrado voltar naturalmente. Poderemos verificar, diante de tudo o que foi feito nessa área nos últimos 50 anos, se o Cerrado será capaz de se regenerar. Isso nos dará a base para atuarmos em outras áreas do bioma”, finalizou, agradecendo ao INMET pela parceria.

Após as apresentações, os empregados do INMET visitaram a área onde foram realizados os plantios de recuperação da vegetação do Cerrado em 2004, apresentada por Fabiana Aquino, Felipe Ribeiro e Maria Cristina de Oliveira.

Fonte: Embrapa Cerrados

Autor

Redação do Jornal de Planaltina

Redação

Autoria coletiva da redação do Jornal de Planaltina.

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